12 de fevereiro de 2014

Evangelho de Marcos - Notas Introdutórias

 O EVANGELHO DE MARCOS

 

Nota Explicativa

Desejo iniciar um trabalho contínuo de acúmulo de informações sobre os livros bíblicos e começarei com o Evangelho de Marcos.
Começo com este Evangelho apenas pela oportunidade de estar utilizando o seu texto como fonte para os sermões que pregarei durante o primeiro semestre de 2014. Aproveito, assim, para unir os dois trabalhos: pregação e estudos bíblicos.
O objetivo deste trabalho introdutório é oferecer o conhecimento básico necessário para que qualquer cristão, interessado em compreender melhor as suas leituras deste tão precioso Evangelho.
Não se trata de um trabalho com objetivos acadêmicos, mas tão somente pastoral. Oferecendo aos membros da Igreja Presbiteriana de Vila Formosa, o pouco que conheço e algumas horas de estudo pessoal nas Escrituras.
Ao longo dos anos, espero, sempre que possível, revisitar este material e ampliar e corrigi-lo para que, um dia possa servir de forma bastante eficaz à Igreja de Cristo.
Não é possível identificar com toda a certeza quem foi o autor deste evangelho. O próprio texto não nos dá nenhuma indicação clara. Seguiremos o caminho mais comuns dos estudiosos mais conservadores que identificam o autor do segundo evangelho como sendo João Marcos, sobrinho de Barnabé.
O Evangelho de Marcos, por muitos estudiosos, é considerado o primeiro retrato do ministério de Jesus Cristo a ter sido registrado. Ele pode ter sido a fonte comum dos outros dois sinópticos (Mateus e Lucas) ou ainda pode ter utilizado o material primário que os outros dois também fizeram.
Outro aspecto relevante neste momento é que há uma possibilidade bastante grande de que Marcos tenha tido uma forte influencia do ministério de Pedro, especialmente de suas pregações, como veremos adiante.
Também adiante, falaremos mais sobre as motivações e objetivos de Marcos ao escrever este Evangelho. Mas, certamente, o seu texto tem um objetivo bem claro que é apresentar Jesus Cristo como sendo o Messias, Filho de Deus e, por isso mesmo, destacar a sua autoridade sobre os homens.


O autor do Evangelho

Partindo da nossa premissa de que o autor do segundo evangelho é João Marcos, sobrinho de Barnabé, voltaremos à Escritura para tentar identificar essa personagem e conhecer um pouco da sua história.
O nome Marcos era como se tratava João, filho de Maria, tia de Barnabé. Trata-se de um nome grego, adicionado a um jovem judeu que residia em Jerusalém, mas que teve grande parte da sua vida gasta na obra missionária em meio ao mundo grego (Atos 12.25).
O evangelho nos mostra um judeu, escrevendo para não judeus. Na verdade, isso pode ser inferido das diversas explicações dos ritos judaicos (ex. Marcos 7.1-4).
Vejamos a seguir como as passagens bíblicas fazem referência a este jovem seguidor de Jesus Cristo.

O rapaz carregando um cântaro
O terreno que percorremos é arenoso e movediço. Não podemos fazer afirmações categóricas, mas assumimos, por informações de outros estudiosos antigos,  algumas posições.
Uma destas posições é a de que o jovem, indicado por Jesus, como guia para o local da última ceia, seria este Marcos. Ele é apresentado no texto no capítulo 14.13-16.
O cenáculo (sala grande) usada por Jesus para celebrar a páscoa com os seus discípulos, poderia ser parte da casa de João Marcos e de sua mãe, que se tornaram seguidores de Jesus.
Maria, mãe de João Marcos, era uma mulher rica e possivelmente viúva. Talvez toda a sua família, a exemplo de Barnabé, fosse uma família de posses. Essa família possuía uma grande casa em Jerusalém, embora tivessem suas origens familiares na Ilha Chipre. Uma vez que Barnabé, quando se separa de Paulo, levando consigo João Marcos, vai para a ilha de Chipre.
Este cenáculo, parte da casa de João Marcos, teria se tornado também o local de oração dos discípulos depois da morte de Jesus Cristo e na sua ascensão (Atos 1.12-13; 12.12).

Um jovem envolto em um lençol
Um outra possível referência à presença de João Marcos está no próprio evangelho, no capítulo 14.51-52.
Essa referência é bastante considerada como sendo a ao  evangelista, uma vez que era comum que, os autores de determinados escritos históricos, omitissem o seu nome (a exemplo de João - o discípulo amado) quando desejam fazer referência à sua pessoa na sua obra.
O texto do jovem desnudo só pode ser encontrado neste Evangelho e, de fato, nenhum significado especial teria se não fosse uma referência pessoal a Marcos.
Possivelmente, ele ainda jovem, seguia Jesus e os discípulos que haviam deixado o Cenáculo e fora acompanhá-lo por conta de sua admiração por aquele homem e tudo o que o envolvia.
Mas, quando os guardas chegaram ele teria fugido, deixando o lençol com seus perseguidores. Esse jovem parecia seguir Jesus no anonimato e outros não teriam tido essa informação. Lucas e Mateus, por conta dos seus objetivos pessoais, preferem omitir essa informação que importou apenas a Marcos.

Um jovem missionário e um desistente
Paulo e Barnabé retornam a Jerusalém com João Marcos (Atos 12.25). Aqui, o jovem João Marcos é inserido na caravana missionária do seu primo Barnabé, ao lado do apóstolo Paulo, ainda chamado Saulo a esta altura.
Eles, então, são enviados em uma primeira viagem missionária, que está relatada no capítulo 13 de Atos.
No entanto, talvez motivado pelas dificuldades enfrentadas na ilha de Pafos, ao chegarem à Perge, na Panfília, João Marcos decide afastar-se do grupo e retornar à sua casa em Jerusalém (Atos 13.13).

Um jovem sendo discipulado
 Noutro momento, depois de encerrada a primeira grande viagem missionária. Paulo e Barnabé estão de novo em Antioquia e a Igreja decide novamente enviá-los em viagem missionária.
Barnabé propõe ao grupo que leve novamente João Marcos, que estava novamente se apresentando à obra missionária (Atos 15.36-37). Paulo, porém, discorda de Barnabé e ambos decidem seguir em caminhos diferentes (Atos 15.38-39).
Barnabé, entretanto, leva consigo João Marcos, acreditando em seu potencial missionário, para a sua terra natal Chipre. Paulo, foi para Siria e Cilícia, com Silas.

Um jovem restaurado
O que as cartas do Novo Testamento falam sobre João Marcos nos mostram que todo o problema ocorrido na primeira viagem missionária tinha sido solucionado.
Na verdade, o que veremos é que João Marcos e Lucas se tornarão dois dos mais importantes e fiéis colaboradores do ministério de Paulo.
Na carta aos Colossenses, João Marcos é apresentado acompanhando Paulo na sua prisão (Colossenses 4.10). Ele seria enviado à cidade de Colossos para instruir os irmãos a respeito do que fazer naquele momento.
Onésimo, um dos que estavam na prisão com Paulo, retornou à Colossos e levou uma carta para Filemon, na qual Marcos é mencionado como um dos cooperadores do ministério de Paulo (Filemon 24). Essa menção nos oferece a possibilidade de pensar que Marcos não teria feito parte da comitiva à Colossos.
Talvez, neste tempo, ele tivesse ficado em Roma acompanhando Pedro, que fez uma menção à sua companhia, inclusive indicando uma ligação muito forte com João Marcos (2 Pedro 5.13).
Paulo, novamente requisita a presença de João Marcos, em uma das suas últimas epístolas (2 Timóteo 4.11). Essa menção de Paulo a JOão Marcos nos dá todo o entendimento que devemos ter da restauração deste moço que, teve o seu momento de deserto, mas que foi restaurado pela paciência de seu primo Barnabé e pela obra do Espírito Santo.
O que podemos entender que João Marcos acabou por desenvolver algum tipo de ministério de apoio muito importante aos apóstolos, em especial Pedro e Paulo.


Principais temas do Evangelho
Não é tarefa tão simples determinar quais seriam as ênfases pretendidas por um escritor do primeiro século, que viveu ao lado de homens como Pedro e Paulo. Mas é, com certeza, o dever de todo estudioso das Escrituras, investigar no texto as pistas deste próprio autor, esperando que a iluminação do Espírito Santo o ajude a encontrar a mensagem deste importante texto canônico.
Na verdade, podemos afirmar com certeza de que o seu propósito tinha uma interligação com os interesses e necessidades da comunidade cristã naqueles dias.
Considerando que o Evangelho de Marcos como um dos mais antigos escritos do Novo Testamento e que pode ter sido escrito e entregue por volta dos anos 50 a 60 d.C., seria de alguma valia que tivéssemos alguma informação sobre esses irmãos e irmãs, primeiros leitores do Evangelho.

A Comunidade Cristã nos dias de Marcos
Em geral, o Evangelho de Marcos é considerado como um escrito de ênfase gentílica, muito provavelmente para um público romano. Essa possibilidade é ressaltada por tradições primitivas que informavam que o Evangelho fora escrito por Marcos na cidade de Roma, segundo as orientações de Pedro (Papias 135-140 D.C. - Bispo de Hierápolis, o mais antigo registro que faz referência à autoria de Marcos - ver “História Eclesiástica de Eusébio de Cesaréia).

Alguns elementos que apontam para uma audiência romana:
A) Linguistas indicam que há latinismos no texto de Marcos (4.21; 12.14; 6.27).
B) O uso do termo quadrante, moeda romana, que definia o valor dado pela viúva pobre, o que Lucas se limita a dizer “todo o seu sustento”.
C) Marcos, por exemplo, explica costumes judaicos (Mc 7. 3-4), quando trata das purificações cerimoniais.

Estes e outros elementos sugerem uma igreja vivendo em Roma (1Pe 5.13) para qual Marcos escreve um Evangelho, segundo as instruções e testemunhos do próprio Pedro.
Essa comunidade, que estava na sede do império, com toda possibilidade, já começava a sentir o peso das perseguições que nos anos posteriores haveriam de recair sobre a igreja e até sobre os judeus, quando Nero, em 64 D.C. pós fogo em Roma, culpando estes dois grupos, o resultado disto foi a destruição do templo de Jerusalém no ano 70 D.C..
Pedro e Paulo possivelmente foram mortos nos dias de Nero, após o início da perseguição. O evangelho de Marcos não faz referência a este período, mas insiste em orientar os cristãos sobre a possibilidade de serem perseguidos (Mc 4.17; 13.9; 13.13-19). Isso tudo revela a crescente oposição ao cristianismo e Marcos esteve preparando a comunidade cristã a manter-se firme nestes dias.
Dentro deste clima de fortalecimento e encorajamento para a luta contra a oposição do mundo, Marcos estabelece alguns temas que podem ser encontrados na leitura do Evangelho.

Jesus o Filho de Deus
Um dos temas que encontramos no Evangelho é logo anunciado no primeiro versículo:
Princípio do Evangelho de Jesus Cristo, Filho de Deus (Mc 1.1).
 O Evangelho tem uma preocupação intensa em nos mostrar Jesus Cristo e sua origem em Deus. Embora não se ocupe em descrever o nascimento de Jesus, ele reafirma a filiação eterna de Jesus (Mc 1.1, 11, 24; 3.11; 5.7; 9.7; 15.39).
Marcos, entendia que se os crentes tivessem um claro conceito de que Jesus era verdadeiramente o Filho de Deus, sua postura diante das adversidades para a fé seria a de coragem e determinação.
Suas descrições a respeito de Jesus não param somente na sua origem e filiação divina. Marcos demonstra que, como Filho de Deus, ele recebe do Pai autoridade.

A autoridade de Cristo
O tema da autoridade tinha um significado muito importante para os crentes romanos. Inclusive, devemos nos lembrar que uma parte significativa da guarda romana tinha aderido à fé cristã (Fp 4.22).
Ao apresentar a autoridade de Cristo ele comunicava aos crentes romanos uma convicção muito forte de que era necessária uma relação de obediência a Cristo (2Co 10.7-8).
Ao longo do texto, muitas vezes, a autoridade de Cristo é reafirmada claramente (1.22, 27; 2.10; 11.28-33). Outras vezes, essa autoridade é inferida pelas palavras usadas por Marcos, como por exemplo as ordens que dava para a realização de seus sinais (2.11; 3.12; 4.39-41; 5.41; 9.25).  

A Humanidade de Jesus
A ênfase de Marcos na autoridade e origem divina de Jesus não o fez sucumbir na questão da sua humanidade. Marcos, como os demais apóstolos, sabia que a obra redencional só poderia ser considerada realizada se o redentor fosse verdadeiramente homem (1Jo 4.2-3).
Essa postura de Marcos serviria de incentivo para que a Igreja primitiva percebesse o intento salvador da encarnação do verbo e, baseados nessa percepção, se mantivessem firmes em sua caminhada como uma resposta de completa gratidão (Gl 2.20).
O devido equilíbrio entre a divindade e a humanidade de Cristo é positivamente vista no evangelho no uso dos termos “Filho de Deus”, mas também “Filho do Homem” (2.10, 28; 8.31,38; 9.9-12; 10.33; 13.26).
Como homem, várias referências demonstram isso: ele come (2.16), se angustia (3.5), dorme (4.38), tem fome (11.12),  bebe (15.36) etc..
A visão de Jesus como homem, leva a igreja cristã em meio a perseguição a entender que Jesus Cristo se compadece da situação da sua igreja (5.25-26; 6.34) o que é apresentado pelos inúmeros casos de curas que Marcos descreve.

A urgência do Reino  
A urgência do reino é um tema dominante do Evangelho (1.15; 13.28-37). Essa urgência pode ser percebida no fato de que este evangelho é marcado pelo movimento.
Os conectivos de texto com ênfase na ideia de tempo e deslocamento geográfico são abundantes no Evangelho (14.1; 11.12; 10.46 e muitos outros). Essa construção não pode ser considerada apenas como uma questão de estilo, mas de ênfase.
Marcos, tinha interesse em apresentar Cristo a caminho de Jerusalém com a urgência de cumprir a sua missão, contudo, estabelece a conexão de que não se trata de pressa, mas de prioridade.
Isso talvez explique porque o evangelho se inicia e rapidamente objetiva o ministério público de Jesus. Após uma rápida introdução, o batismo de Jesus é apresentado (1.9-11) e logo ele já está pregando o evangelho de Deus (1.14).
Enfatizar a urgência do Reino era um recurso para estimular a Igreja a perceber que sua estada neste mundo não poderia ser considerada um fim em si mesmo, mas que os crentes deveriam viver a mesma perspectiva do Reino.

A missão da Igreja
A missão da igreja, ordenada no capítulo 16 de Marcos (noutra oportunidade discutiremos a questão do final curto ou longo do Evangelho), é dada dentro dos termos desta urgência e coragem para enfrentar todas as dificuldades da vida (16.14-18).
Mas, para poderem se manter nessa jornada, vencendo as adversidades, os crentes deveriam crer em Jesus e este evangelho apresenta um conteúdo para que Jesus fosse crido, amado e servido por seus discípulos (16.19-20).

A Harmonia dos Evangelhos Sinópticos

Os evangelhos sinópticos são uma parte muito importante da literatura bíblica. Eles estão entre as primeiras tentativas de aplicar uma mentalidade cristocêntrica à igreja primitiva. Evidentemente, neste interessante modelo de cristocentrização da Igreja por meio do relato do ministério terreno de Cristo, podemos também incluir João, um evangelho mais tardio, escrito talvez no final do século I.
Em geral, os evangelistas viveram um tempo de crise de fé na igreja iniciante. As promessas da vinda de Jesus pareciam tardar e muitos estavam mortos. Alguns dos discípulos haviam morrido e outros, começavam a perceber sua partida.
A continuidade da fé cristã, entenderam os evangelistas, estaria fortemente ligada à uma consciência clara da sua cristocentricidade. Seus relatos, se tornaram, então, uma das mais significativas ferramentas para trazer a Igreja à certeza de Cristo Jesus.

Para que tenhas plena certeza das verdades em que foste instruído (Lucas 1.4).
Escrevi o primeiro livro, ó Teófilo, relatando todas as coisas que Jesus começou a fazer e a ensinar, até ao dia em que, depois de haver dado mandamentos por intermédio do Espírito Santo aos apóstolos que escolhera, foi elevado às alturas (Atos 1.1-2).

 Agostinho foi o primeiro a usar a expressão “harmonia dos Evangelhos”, a qual vem sendo usada por estudiosos de todos os tempos para definir o significado e importância dos sinópticos no que tange ao texto e à sua construção.

Os principais pontos a serem discutidos neste estudo são:
A) As Fontes dos Evangelhos
B) Os relatos comuns dos evangelhos;
C) Os relatos distintos dos evangelhos;
D) Os relatos discrepantes dos evangelhos.

As Fontes dos Evangelhos Sinópticos
A tese mais aceita na academia cristã mais conservadora é que Marcos teria sido o primeiro dos evangelhos sinópticos a ser escrito.
Marcos teria se apoiado grandemente nas reminiscências do Apóstolo Pedro e também se utilizado de fontes orais e alguns fragmentos escritos a respeito da vida de Jesus.
Mateus e Lucas teriam consultado Marcos como uma fonte balizadora inicial e disposto de outros materiais em comum. O que explicaria o fato de haver passagens em Mateus e Lucas que não se encontram em Marcos (ex.:Mt 12.33-37 e Lc 6.43-45).
Há vários possíveis argumentos em favor da primazia de Marcos. Mas dois nos parecem mais razoáveis.
A) A brevidade do Evangelho de Marcos - o fato de Marcos ser um evangelho mais breve favorece a sua primazia pelo simples fato de que, se Marcos tivesse sido escrito após qualquer porque teria omitido tanta informação importante? Não teria sido desperto para usar as mesmas informações aplicando ao seu propósito central. Por exemplo, não teria utilizado a magistral frase “Toda autoridade me foi dada no céu e na terra...” com o intuito de fortalecer o seu tema da autoridade de Cristo? Por outro lado é bastante lógico que, tendo Mateus e Lucas um evangelho já escrito, fizessem o mesmo utilizando os seus dados e outros ainda disponíveis, como os textos nos mostram que fizeram.
B) A ligação de dependência e independência de Marcos e a harmonia com o mesmo. Deixe-me explicar isso. Noventa por cento do texto de Marcos pode ser encontrado nos outros dois, às vezes em um e não no outro e às vezes, em ambos. Quando observamos estes textos comuns e não comuns entre os evangelhos, notamos algumas coisas. Por exemplo, notamos que a sequência de alguns textos em Mateus, combina com Marcos e não com Lucas; e que ´há sequencias de textos que combinam entre Lucas e Marcos e não com Mateus; mas, por outro lado, não temos nenhum texto em que a sequencia combina entre Mateus e Lucas, discordando de Marcos.
Estas duas razões apontam para uma primazia de Marcos aos outros dois evangelhos.
Lucas, como ele mesmo identifica, escreveu o seu evangelho depois de constatar que outros já haviam feito o mesmo (Lc 1.1).
A tradição da Igreja Católica considerou por muito tempo que a primazia seria do Evangelho de Mateus, por ter sido o único dos escritores sinópticos a ter convivido diretamente com Jesus. Entretanto, esse argumento nada tem de definitivo para afirmar essa primazia. O ponto que levantamos é, o que teria levado Marcos, se não foi o primeiro evangelho a ser escrito, a omitir tantas passagens importantes, como já dissemos anteriormente.
As fontes que Marcos teria se utilizado, possivelmente, além das reminiscências de Pedro, como já dissemos, outros fragmentos escritos sobre a vida de Jesus e a tradição oral dentro da própria igreja a respeito dos fatos que haviam se dado ali em Jerusalém.
Luca atesta que essa prática de tradição oral era um dos modos de recuperar a história de Jesus (Lc 1.1-2). E podemos ver um exemplo disto são os discípulos no caminho de Emáus que estão conversando sobre os acontecimentos de Jerusalém (Lc 24.14). Essa tradição oral sempre foi uma marca dos judeus e permaneceu na cultura inicial da igreja cristã.

Os relatos comuns dos evangelhos
Os evangelhos sinópticos têm muitos relatos comuns. Alguns deles são impressionantemente iguais.

Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados - disse ao paralítico:  Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa (Mc 2.10-11).
Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados - disse, então, ao paralítico: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa (Mt 9.6).
Mas, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados - disse ao paralítico: Eu te ordeno: Levanta-te, toma o teu leito e vai para casa (Lc 5.24). 

Lucas e Marcos incluem a ordem para que o homem se levante. Mateus não aponta para a ideia da ordem. Mas, no restante, todo o verso é bastante semelhante.
As semelhanças dos sinópticos não param apenas na compilação de textos semelhantes. Também encontraremos sequências de acontecimentos relatados na mesma ordem.

Os relatos comuns dos evangelhos trabalham em favor da ideia de que eles tinham como figura central a vida e obra de Jesus. A cristocentricidade da Igreja era um alvo dos apóstolos e de todos os líderes do cristianismo inicial e, do próprio Senhor, que inspirava os seus discípulos para o registro destas histórias.

Os relatos distintos dos evangelhos
Os relatos distintos, isto é, aqueles que constam em um dos evangelhos e não nos outros também são assunto de especial interesse.
Essas distinções trabalham em favor da ideia de que realmente existia uma intencionalidade distinta de cada evangelista, um público distinto e uma independência intelectual entre os evangelistas. Não se tratava de escritos para provar um ponto de vista construído por um grupo de líderes interessados em manipulação.
Além de nos mostrar diferentes nuances do ministério de Cristo e diferentes enfoques e abordagens, os evangelistas também nos mostraram que trabalham com várias fontes e que as histórias do ministério terreno de Jesus haviam alcançado vasto público e se difundido fortemente.
Exemplos:
Lucas, por exemplo, é o único a relatar sobre a missão dos setenta e o seu retorno (Lucas 10.1-12 e 10.17-20).
Mateus o único a ter uma sessão grande de parábolas sobre o Reino (Mt 13.33-52).
Marcos, o único a nos falar sobre o cego de Betsaida, curado em duas etapas (Mc 8.22-26).
Os propósitos e público distintos, as fontes diferentes e os momentos diferentes resultaram em evangelhos diferentes. Todos eles trabalharam com uma seleção de materiais, pois de fato, Jesus fez muito mais do que está relatado. O que é contado em cada um dos evangelistas, segue um propósito bastante claro.
Até mesmo alguns acréscimos e supressões no próprio texto. Por exemplo, o relato da volta de Jesus. A parousia não é um tema que Lucas deu muita atenção, preferindo um relato que omitisse a palavra “céu” para o retorno de Cristo (comparar: Lc 21.25-28; Mt 24.29-31; Mc 13.24-27).

O Evangelho de Marcos e os Discursos de Pedro

A ideia geral de que o Evangelho de Marcos tem uma relação vital com a pessoa e testemunho de Pedro é bem antiga na história da igreja. Já no segundo século temos informações dos pais da Igreja sobre essa relação. 

Papias (115 d.C), afirmou: 
"Marcos, tendo-se tornado intérprete de Pedro, escreveu acuradamente tudo quanto lembrou". 
Irineu (185 d.C) disse: 
"Agora, depois da morte de Pedro e Paulo, Marcos, o discípulo e intérprete de Pedro, também transmitiu-nos em escrito, o que Pedro pregou". 
Como podemos ver a ideia de proximidade discursiva entre Pedro e o Evangelho de Marcos é uma afirmação que estava fortemente difundida na Igreja do primeiro e segundo século. 
Em geral, os estudiosos afirmam que estas afirmações são coerentes com a própria estrutura apresentada no próprio evangelho quando comparamos com os discursos de Pedro em Atos. 

Os discursos de Pedro em Atos

O livro de Atos do Apóstolos, que poderia muito bem ser apelidado de Atos de Pedro e Paulo, retrata fortemente a trajetória destes dois ícones dos primórdios da Igreja. Em geral, compreende-se que Lucas enfoca essas duas personalidades com o propósito de nos mostrar o crescimento da Igreja nas suas duas vertentes mais significativas: os judeus  (ministério de Pedro) e os gentios (ministério de Paulo).
"... antes, pelo contrário, quando viram que o evangelho da incircuncisão me fora confiado, como a Pedro o da circuncisão" (Gálatas 2.7). 
Logo no início da Igreja Cristã, Pedro se destaca com o líder do colégio apostólico. Ele, com sua personalidade marcante, se apresenta como o primeiro grande orador dentre os chamados apóstolos de Cristo e de toda a comunidade cristã inicial. 
O médico historiador, destaca o desempenho da liderança de Pedro por meio de um resumo de seus principais atos à frente daquele grupo emergente do judaísmo, que se destacou pela sua pregação em nome de Jesus Cristo de Nazaré. 
"Pedro, cheio do Espírito Santo, lhes disse: Autoridades do povo e anciãos, visto que hoje somos interrogados a propósito do benefício feito a um homem enfermo e do modo por que foi curado, tomai conhecimento, vós todos e todo o povo de Israel, de que, em nome de Jesus Cristo, o Nazareno, a quem vós crucificastes, e a quem Deus ressuscitou dentre os mortos, sim, em seu nome é que este está curado perante vós" (Atos 4.8-10). 
Pedro, portanto, tornou-se um porta voz do cristianismo nascente e Lucas registrou alguns dos seus discursos no Livro de Atos. Estes discursos podem enfatizam sempre a ideia de Jesus Cristo como o Messias de Deus, que foi rejeitado e morto pelos Judeus, tendo sido ressuscitado por Deus de entre os mortos.

Em geral, oito discursos do livro de Atos dos Apóstolos são atribuídos a Pedro: 

1 - Discurso diante dos irmãos no cenáculo - 1.15-22; 
2 - Discurso diante da multidão em Jerusalém depois do Pentecostes - 2.14-36; 
3 - Discurso diante do povo e das autoridades na primeira controvérsia sobre o nome de Jesus - 4.8-12; 
4 - Discurso de repreensão à Ananias e Safira - 5.8-9;
5 - Discurso perante as autoridades na segunda controvérsia sobre o nome de Jesus - 5.29-32; 
6 - Discurso na casa de Cornélio em Jope - 10.34-43; 
7 - Discurso em defesa dos gentios diante do colégio apostólico - 11.4-17; 
8 - Discurso silente diante dos irmãos após a libertação da prisão - 12.17. 

Tais discursos de Pedro revelam muito sobre sua teologia e liderança no colégio apostólico. Os mais longos e que apontam principalmente para Jesus nos ajudam a discernir uma real estruturação do Evangelho na mensagem e testemunho de Pedro. 

A Cristologia de Pedro e o Evangelho de Marcos

Baseados nos discursos de caráter cristológico de Pedro no livro de Atos, podemos notar que a construção do Evangelho de Marcos segue realmente uma estrutura comum. 

Discurso diante dos irmãos no cenáculo - 1.15-22 

Neste discurso, o primeiro registrado por Lucas, Pedro está tratando da substituição de Judas, o traidor. Ao introduzir a necessidade de substituição, Pedro recorre à Escritura profética (verso 20) e em seguida oferece os parâmetros sobre quais os que estariam qualificados para tal lugar. 
"É necessário, pois, que, dos homens que nos acompanharam todo o tempo que o Senhor Jesus andou entre nós, começando no batismo de João, até o dia em que dentre nós foi levado às alturas, um destes se torne testemunha conosco da sua ressurreição" (Atos 1.21-22). 
Ao posicionar-se sobre os elementos que qualificariam um apóstolo, a ênfase de Pedro recai sobre um conhecimento da obra e pessoa de Cristo Jesus. Ele não trata dos elementos antecedentes ao ministério público de Cristo, tais como, nascimento e infância de Jesus. Ele identifica o batismo de João como o ponto de partida e todo o ministério público de Jesus até sua morte, ressurreição e ascensão. 
Facilmente, podemos notar que esta é a estrutura que Marcos trabalha na construção do seu Evangelho. Devemos considerar que Marcos, ao selecionar material para dar à Igreja Primitiva o necessário para o fortalecimento de sua fé e confiança na mensagem apostólica, ele usa exatamente essa estrutura iniciando pelo batismo de João, o ministério público, a crucificação, ressurreição e ascensão de Cristo. 

Estrutura Resumida do Evangelho de Marcos
Preâmbulo - 1.1-8 (o ministério de João Batista);Início do Ministério de Jesus - 1.9-13 (batismo e tentação de Cristo); 
O ministério Público na Galiléia - 1.14 a  9.50;O ministério público na Judeia - 10.1 a 52O ministério público em Jerusalém e arredores - 11.1 a 14.9
O fim do ministério terreno - 14.10 a 42 (preparação)O fim do ministério terreno - 14.43 a 15.47 (prisão, crucificação, morte e sepultamento)O fim do ministério terreno - 16.1 a 20 (ressurreição e ascensão). 
Como podemos ver comparativamente ao resumo proposto por Pedro, esta estrutura do Evangelho faz todo o sentido, se entendermos que ela foi construída a partir da maneira de Pedro compreender o que era realmente importante saber sobre a vida de Jesus para ser dar um testemunho apostólico. 


Discurso diante da multidão em Jerusalém depois do Pentecostes - 2.14-36

Este é o mais longo discurso de Pedro registrado em Atos dos Apóstolos. Nele, o apóstolo inicia explicando os acontecimentos imediatos do Pentecostes e prossegue com uma importante exortação ao povo de Israel. Seu argumento é acusatório na medida em que aponta que eles rejeitaram o Messias e o crucificaram por conta desse erro do povo, proporcionado pela falsa condução das autoridades religiosas de Jerusalém. 

Após a justificativa profética do seu discurso, ele inicia sua sessão cristológica apontando para Jesus, o Nazareno e os milagres que credenciaram o seu ministério. Ele vai direto ao ponto dizendo que, apesar deles terem conhecimento dos milagres que fez, ainda sim o rejeitaram e o entregaram aos romanos para o crucificarem. Após essa acusação Pedro faz a afirmação da ressurreição como obra de Deus e sua consequente ascensão. 

Podemos notar que ele segue mais ou menos a mesma construção proposta no primeiro discurso. Destacamos, entretanto, mais um elemento, a rejeição de Jesus. 
Marcos, trabalha com este tema em seu Evangelho, propondo que em muitas ocasiões Jesus foi rejeitado. 

A rejeição de Jesus em Marcos
Jesus é rejeitado pelos escribas e fariseus  - 2.6-7; 3.2-6; 3.22; 
Jesus é rejeitado pelos gerasenos - 5.14-17; 
Jesus é rejeitado pelos nazarenos - 6.1-6; 

O discurso de Jesus em Jerusalém, após o acontecimento da descida do Espírito Santo também é marcado por uma grande importância à prisão e morte de Jesus como resultado da rejeição e manipulação das autoridades religiosas. 
Da mesma forma, Marcos dá grande espaço para as advertências de Jesus sobre sua entrega às autoridades que o matarão, tanto quanto aos planos malignos destes para o prender e matar. 

(apontar os textos)

Discurso na casa de Cornélio em Jope - 10.34-43

Este discurso é uma espécie de resumo do entendimento de Pedro sobre o Evangelho (10.36). Ele faz uma breve exposição sobre o que pensa a respeito da vida e obra de Jesus Cristo, o essencial para que aqueles gentios entendessem a fé e cressem. 
Façamos uma breve comparação entre este discurso e o Evangelho de Marcos. Esta tabela a seguir tomo por empréstimo do livro "Introdução ao Novo Testamento" de Donald Carson, Douglas Moo e Leon Morris - ed. Vida Nova. 

Atos 10
Evangelho de Marcos
Evangelho – verso 36
Evangelho – 1.1
Deus Ungiu Jesus com o Espírito Santo – verso 38
A vinda do Espírito Santo sobre Jesus – 1.10
Começo na Galiléia  - verso 37
Começo na Galiléia – 1.16-8.26
Ênfase nas curas – verso 38
Jesus e o ministério de curas – 1.16-7.37
Os sinais em Jerusalém – verso 39
O ministério em Jerusalém – 11.1-14-9
A morte de Jesus – verso 39
A morte de Jesus – 14.10-15.47
Ressurreição – verso 40
Ressurreição – 16.1-40


Conclusão

Podemos de fato considerar bastante plausível a hipótese de dependência de Marcos em relação à cristologia pedrina. Pois, além do testemunho dos pais da igreja, podemos constatar a verosimilidade da tese a partir dos próprios textos bíblicos. 
Fortalece esse argumento também o fato de que Pedro se refere a João Marcos como a um filho em sua primeira epístola (1Pe 5.13), assim como havia uma relação da liderança apostólica com a família de João Marcos (Atos 12.12). 

Podemos ainda verificar essa ligação vital entre o Evangelho e o apóstolo Pedro, a partir de outros elementos. Há a necessidade de se fazer alguns levantamentos e comparações com os sinópticos para percebermos que as omissões em relação a Pedro no Evangelho pode apontar para a interferência do mesmo, assim como também algumas das inclusões. 

Apenas a título de exemplo, vamos pontuar sobre: 

Algumas omissões:
a) a vergonha de Pedro no momento da grande pesca (Marcos 1.16-20 e Lucas 5.1-11). 
b) a declaração tola na cura da mulher com fluxo de sangue (Marcos 5.30-31 e Lucas 8.45)
Algumas inclusões:
a) Identificação de Pedro a procura de Jesus (Marcos 1.35-37 e Lucas 4.42); 
b) Identificação de Pedro no caso da figueira que secara (Marcos 11.20-23 e Mateus 21.18-21). 

Com certeza, poderíamos nos aprofundar mais no estudo deste riquíssimo evangelho e aprenderíamos muito ao observá-lo tendo um olhar na teologia, cristologia e eclesiologia de Pedro, quer nas suas cartas, quer nos seus discursos e ações em Atos dos Apóstolos. 

9 de fevereiro de 2014

Marcos 5.1-17

“Segurança Espiritual”

 

Foco da Nossa Condição Decaída

Aprender a considerar que o verdadeiro problema a ser enfrentado nessa vida é de caráter e ordem espiritual. Que o nosso maior inimigo é verdadeiramente o nosso pecado e um coração incapaz de aceitar o caminho de Deus. Marcos nos conduz a manter a nossa segurança nas escolhas de Cristo para nós.

Introdução

Nos dias de Marcos, a igreja precisa de uma profunda reflexão sobre todas as dificuldades que estava enfrentando. Muitos crentes não conseguiam compreender muito bem o mundo que o cercava e atribuía a tudo uma causa meramente humana.
De fato, as coisas que nos acontecem podem ter uma causa direta material e humana, mas, com certeza, o nosso maior problema é de origem espiritual. Nem gosto muito dessa expressão, porque, em geral, as pessoas tendem a trabalhar com coisas estanques: o material e o espiritual.
As Escrituras nos ensinam que são realidades que esse entrelaçam e interdependem. Reconhecer essa realidade é também reconhecer os limites de nossa capacidade e, portanto, a necessidade de submissão a Cristo e ao seu agir na nossa vida.
Eu lhes convido a entender o que realmente significa segurança espiritual. O quanto a nossa humildade e submissão a Cristo pode nos dar paz ao coração.

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Segurança Espiritual em Cristo é Saber Que as Soluções Humanas Podem Falhar, Mas as de Cristo Não
A primeira parte do texto apresenta o problema. O argumento de Marcos está apontando para o fato de que algumas situações fogem ao controle humano e que a segurança espiritual em Cristo é superior a qualquer esforço de se sentir seguro na capacidade humana.

No capítulo 4, versos 35 a 41, vemos uma tempestade que fugiu ao controle humano completamente. As habilidades de navegação dos discípulos não significaram nada naquele momento, o conhecimento do mar, porque eram pescadores, não era suficiente para controlarem sua jornada rumo a margem oposta. Eles precisaram chegar ao limite de todas as suas possibilidades para que pudessem apreciar a autoridade de Jesus sobre o mar revolto e os ventos.
Quem é este que até o vento e mar lhe obedecem? (Marcos 4.41).
Agora, do outro lado da margem, o que está fora de controle não é um elemento da natureza, mas um ser humano.
Ao desembarcar, logo veio dos sepulcros, ao seu encontro, um homem possesso de espírito imundo, o qual vivia nos sepulcros, e nem mesmo com cadeias alguém podia prendê-lo; porque, tendo sido muitas vezes preso com grilhões e cadeias, as cadeias foram quebradas por ele, e os grilhões, despedaçados. E ninguém podia subjugá-lo. Andava sempre, de noite e de dia, clamando por entre os sepulcros e pelo montes, ferindo-se com pedras (Marcos 5.2-5).
Marcos está propondo que a Igreja continuasse a viver a sua fé em Cristo apoiando sua fé ao fato de terem a noção perfeita da autoridade de Cristo Jesus, quer sobre os poderes da natureza, como sobre toda a obra do maligno entre os homens.
Marcos faz o relato mais detalhado das circunstâncias que envolviam a vida deste homem (ou homens como diz Mateus). Os demônios influenciavam este homem para ser violento e anti social, fazendo com que a sua relação com as demais pessoas fosse rompida. Ele também se cortava e fazia a si mesmo o mal.
Mas como os gerasenos tentaram resolver essa situação? Como lidaram com este problema? Eles tentaram haviam desistido daquele homem e partiram para uma ação extrema, prender aquele homem com grilhões e correntes. Mas a solução que haviam dado era insuficiente. Com certeza, então, resolveram isolá-lo e evitavam aquele lugar.
É difícil encarar o fato de que nossos recursos para resolver a nossa vida são insuficientes e que muitas vezes e situações não há nada que possamos fazer que seja realmente efetivo.
Marcos está instruindo a igreja de seu tempo a encarar este mundo não apenas com olhos naquilo que é tangível ao poder e capacidade humana. Ele os alerta sobre situações em que as circunstâncias fogem ao controle. O mar revolto era um elemento do seu costume, atribuído às forças da natureza e muitas vezes suplantava as capacidades humanas de navegação. Este exemplo preparava os homens para algo ainda pior, o descontrole do homem sob a influencia do maligno.
Nós precisamos deste discernimento. Precisamos reconhecer que a presente existência não é composta apenas dos elementos materiais e visíveis, mas de elementos que fogem completamente aos nossos sentidos.
Paulo, escreveu aos crentes de Éfeso conscientizando-os sobre a necessidade de discernirem que vivemos uma luta que é travada em contextos que fogem aos elementos da materialidade.
Porque a nossa luta não é contra o sangue e a carne e sim contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes (Efésios 6.12).
 O objetivo não criar o medo do poder maligno, mas a consciência das limitações dos nossos recursos e da nossa necessidade de enfrentar tudo segundo os recursos e poder de Cristo.
Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo... (O poder de Deus) o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro (Efésios 1.3,20-21).
Um homem possesso de espírito imundo - Marcos deixa claro que o homem estava sob a influência do maligno. Ele desperta a mente dos seus leitores para essa condição. O resultado dessa influência é o caos e todo o desajuste pessoal e social que segue a descrição de Marcos.
Ele faz essa descrição vívida para provocar a reflexão e chamar a atenção para uma possibilidade bastante realista a respeito de toda a desordem que circunda a igreja.
Meus caros irmãos, vivemos em um mundo que os escritores bíblicos entendiam estar sob a influência do maligno, mas os chamava a pensar que é necessário considerar que muitas vezes a solução humana somente é completamente insuficiente.
Prender aquele homem e tentar controlar aquele caos com correntes e grilhões nada resolveu. Foi o poder e o agir de Cristo a única resposta. A igreja precisava discernir que o Reino de Cristo era espiritual e a única segurança real tinha tudo a ver com uma entrega confiante a ele.

Segurança Espiritual em Cristo é Saber Que Jesus Trabalha Para Tratar o Real Problema
Marcos é o evangelista que mais explora a autoridade de Jesus sobre os poderes do maligno. Neste trecho, mais uma vez um demônio se aproxima de Jesus com um gesto de reconhecimento de sua majestade, mas Cristo não se deixa levar por esse gesto de falsa espiritualidade.
Quando, de longe, viu Jesus, correu e o adorou, exclamando com alta voz: Que tenho eu contigo, Jesus, Filho do Deus Altíssimo? Conjuro-te que não me atormentes! Porque Jesus lhe dissera: Espírito imundo, sai desse homem! (Marcos 5.6-8).
A questão central do problema dos gerasenos não era o homem endemoninhado, mas a má influência maligna que o conduzia. Jesus não tentou prender o homem, mas enfocou em libertá-lo.
Precisamos sim de uma consciência clara do verdadeiro problema a ser considerado. Resolver apenas os sintomas sem tratar as causas de uma doença não é verdadeiramente uma cura.
Muitas vezes, nos concentramos em tratar os sintomas, porque eles nos incomodam. O problema do jovem endemoniado  estava sendo tratado apenas nos sintomas, eles o prendiam e tentaram acabar com o sintoma. Mas, Jesus trabalha para tratar as causas da nossa doença.
E perguntou-lhe: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião é o meu nome, porque somos muitos (Marcos 5.9).
Aumentado ainda a sua descrição do problema, Marcos acrescenta o dramático diálogo em que o demônio revela o seu nome “Legião”.
Esse nome apontava para o fato de que havia realmente uma guerra espiritual sendo travada. O problema não era meramente um homem que causava transtornos à comunidade, tratava-se de uma ação maligna dirigida para a perturbação da vida daquele vilarejo.
Para uma audiência romana, a expressão legião, com certeza apontava para algo muito concreto. Uma divisão inteira de soldados romanos, se chamava “legião”. Este latinismo do Evangelho de Marcos era proposital.
Despertava os seus ouvintes para o tamanho do problema real. Não era o homem em si, mas algo muito maior por detrás daqueles sintomas.
Da mesma forma precisamos considerar que o que Cristo está fazendo na nossa vida não é se preocupar com os sintomas, mas tratar o problema em si. Ele está mortificando o reino das trevas que ainda se levantam e nos influenciam. O seu problema não é que alguém está de cara virada para você, mas o pecado que lhe impede perdoar e se aproximar. Entenda isso!
Não minimize a realidade do mal e não dê soluções meramente humanas para os sintomas. Sim! Tem muita gente que deseja resolver seus problemas sem atacar as causas. Então, se eu não ver o problema, se mantiver longe, acorrentado fora da minha vista, acho que está tudo certo. Engana-se quem pensa assim.
Dobremos nossos joelhos e ataquemos a fonte de nossos problemas, as inclinações pecaminosas da nossa natureza, que nos impede de corrigir o que é preciso corrigir.
Segurança espiritual é saber que Cristo ataca os problemas reais. Ele está de olho no cerne da questão e não no periférico. Os crentes devem desenvolver essa percepção e sentirem-se seguros.

Segurança Espiritual em Cristo é Saber Que a Solução de Cristo Nem Sempre Contempla a Nossa Expectativa
Esta passagem servirá como ponto de apoio para Marcos mostrar uma das suas ênfases do evangelho, a rejeição do Reino de Cristo.
Neste trecho, os espíritos imundos são lançados para uma manada de porcos e os mesmos se lançam em um precipício e morrem, encerrando assim a jornada daqueles espíritos neste mundo.
E rogou-lhe encarecidamente que os não mandasse para fora do país. Ora, pastava ali pelo monte uma grande manada de porcos. E os espíritos imundos rogaram a Jesus, dizendo: Manda-nos para os porcos, para que entremos neles. Jesus os permitiu. Então, saindo os espíritos imundos, entraram nos porcos; e a manda, que era cerca de dois mil, precipitou-se despenhadeiro abaixo, para dentro do mar, onde se afogaram. Os porqueiros fugiram e o anunciaram na cidade e pelos campos. Então, saiu o povo para ver o que sucedera. Indo ter com Jesus, viram o endemoniado, o que tivera a legião, assentado, vestido, em perfeito juízo, e temeram. Os que haviam presenciado os fatos contaram-lhes o que acontecera ao endemoniado e acerca dos porcos. E entraram a rogar-lhe que se retirasse da terra deles (Marcos 5.10-17).
Para algumas pessoas, segurança espiritual é Deus fazer tudo do jeito que esperamos. Ao contrário de nos sentirmos felizes com os resultados efetivos da obra de Deus, nos preocupamos com a frustração dos nossos planos e empreendimentos.
O que temos neste texto é que um contraste é apresentado. O homem que antes estava em completa desordem se acha agora em completa ordem e aqueles que achavam que estavam em ordem, agora revelam que o problema real daquela vila estava em sua perspectiva altamente egocêntrica de sua relação com o mundo.
Eles prendiam o moço, não porque o desejavam curado, mas porque ele lhes atrapalhava no dia a dia. Agora que ele estava bem, ótimo, mas nossos porcos morreram e o nosso lucro cessou.
Sentir paz na ação de Deus na nossa vida, mesmo quando as nossas expectativas não são atendidas é uma virtude que nos conduz a um coração cheio de paz espiritual. Ela só encontra lugar no coração que admite que Deus sabe melhor que nós o que é importante e necessário fazer.
Nesse episódio, Marcos nos conduz a pensar que Deus não está mais preocupado em manter as nossas riquezas que em nos manter bem. Ele tem como prioridade no nosso coração a paz e não a riqueza.
Devemos aprender a nos alegrar com a paz de Cristo. O problema é que nosso coração ainda é muito autocentrado e pouco disposto a ceder à escolhas de Deus quando ele nos diz não.
Será que Jesus não sabia que os porcos eram o ganha pão dos porqueiros? Será que não sabia que ficariam insatisfeitos com essa solução? Será que os demônios conseguiram enganar Jesus?
Nada disso... Jesus precisava nos mostrar o que realmente está no nosso coração. Ele precisava nos deixar essa palavra como um alerta para o fato de que ele não veio cuidar dos nossos planos materialistas, mas veio tratar nosso maior problema e nos libertar.
Segurança espiritual é manter o coração sereno, aconteça o que acontecer, sabendo que nem sempre a solução de Cristo atenderá a nossa expectativa, mas é o melhor.

Conclusão

Caros irmãos, como igreja devemos andar com as nossas esperanças e expectativas todas concentradas em Cristo. Ele é a nossa resposta e devemos nos submeter à sua vontade.
Não vivemos em uma sociedade violenta apenas porque os homens são violentos, mas porque o mundo jaz no maligno. Podemos e devemos nos esforçar pro fazer a nossa parte, mas ainda sim é em Deus que precisamos confiar.
Não precisamos esconder nossa fragilidade nessa área. É claro que a falta de homens e mulheres de oração apenas aponta para o fato de que vivemos concentrados em soluções humanas.
Sua família precisa de uma decisão com base nessa consciência da espiritualidade. Você precisa disto. Você precisa de segurança não em si mesmo ou suas chances de fazer as coisas darem certo. Você precisa descansar no Senhor.

Aplicação Para  a Igreja Presbiteriana de Vila Formosa

Meus caros irmãos!
Estamos aqui para caminharmos juntos essa jornada de fé. Eu desejo para a nossa igreja que um verdadeiro senso de dependência de Deus tome conta de cada um de nós.
Quero chamá-lo à oração e chamá-lo a luta. Jesus nos dará toda a segurança que precisamos e nós devemos confiar nele. Precisamos vigiar, pois as armadilhas de que falou Pedro não são uma brincadeira ou uma mera ilustração.
Todo o caos que nos circunda pode ser transformado em paz. Mas, para tanto precisamos de consciência e entrega espiritual a Cristo.
A igreja tem tudo o que precisa para ser vitoriosa neste mundo. Precisamos agir com inteligência, com fé e coragem. Mas precisamos fazer isso juntos!

Oração

Senhor nos ajude a ver, abra os nossos olhos, mas principalmente para ver que maior é o que está conosco.
Amém.



2 de fevereiro de 2014

Marcos 3.7-12

“Viver Com Prioridade”

 

 

Foco da Nossa Condição Decaída

Nem todos percebem, mas a nossa natureza contaminada pelo pecado provoca em nós uma tendência a afastar de Deus. Viver tendo o reino de Deus como prioridade é uma elevada meta que devemos perseguir. Jesus nos deixou um grande exemplo, ele priorizou o reino em cada parte de sua vida. Não se deixou levar pela influencia dos homens, ou sequer das propostas de Satanás, ele perseguiu o seu elevado ideal de servir a Deus.

Introdução

Deus deixou sua igreja neste mundo com a tarefa de apresentar a todos a necessidade de se voltarem para Deus. Contudo, a maior parte de nós parece desestimulada, desencorajada e bastante despreocupada com a tarefa que recebeu.
Acredito que o tempo pode ter arrefecido nossa coragem para lutar pelo Reino de Deus. Parece que já nos acostumamos com a vida neste mundo, a ponto de passarmos a pensar que isso é a nossa verdadeira prioridade.
Pedro, possivelmente o preceptor do Evangelho de Marcos, se é que de fato, foi com Pedro que Marcos coletou informações sobre Jesus, afinal seu relacionamento próximo favorecia isso (1Pe 5.13), escreve essa carta à Igreja, exortando-a a não perder de vista o Reino de Deus e toda a glória que está reservada para aqueles que viverem para a glória do Senhor neste mundo (1Pe 1.3-4).
Ele concebia a vida na terra como um tempo de peregrinação (1Pe 2.11). Por isso, todos nós temos o dever de reunir toda a nossa diligência e viver neste mundo a certeza de que aguardamos novos e céus e nova terra (2Pe 3.13).
O evangelho de Marcos é um relato bastante direto sobre a vida de Jesus. Há algumas características deste evangelho que nos chamam a atenção e uma delas é a velocidade com que os acontecimentos são tratados.
Marcos utiliza muitos conectivos de movimento no seu texto, perceba-os, por exemplo em: 1.21; 2.1; 2.13; 3.1; 3.7... O senso de urgência de Marcos é muito evidente. Você pode percebê-lo na sua ênfase na chegada iminente do Reino de Deus (1.15; 13.29).
Enfim, o que podemos notar em Marcos é que ele nos conduz a pensar na vida com um foco em uma realidade superior, conduzida por Cristo, o Reino de Deus. Ele entende que a Igreja do seu tempo e nós entendemos que a Igreja hoje, pode se perder com muitos outras preocupações, que pode deixar de lado a importância da vida com Deus e da sua relação vital com Cristo. Por isso, é muito importante que vejamos e sintamos a necessidade da urgência do nosso compromisso com o Pai Celestial.
Nosso texto desta noite nos conduz a pensar nessa urgência a partir do exemplo do próprio Cristo Jesus. Veremos como o Senhor manteve o foco da sua vida, concentrado na vontade do Pai e na obra que ele viria realizar em favor dos filhos de Deus.
Você, meu caro irmão, sente que sua vida perdeu o foco elevado do Reino de Deus? Você se percebe sem prioridade para Deus? Você é daqueles que, poucas horas após o culto, no dia seguinte, já volta a viver mais para si mesmo que para Deus?
Eu quero que você ouça mensagem com o coração aberto para Deus. Aberto para repensar e mudar sua vida. Eu quero chamá-lo a ouvir essa mensagem como eu a tenho ouvido, considerando que o amor de Deus tem me mostrada, dia a dia, que antes importa servir a Deus que aos homens.

Quem deseja viver prioritariamente para Deus não pode resumir a sua vida aos aspectos materiais da existência
A popularidade de Jesus crescia fortemente. O texto nos diz que sua fama alcançava toda a terra de Jerusalém mais ao sul, até da Iduméia, de Tiro e de Sidon. As duas grandes regiões da terra dos filhos de Deus, a Judeia e a Galiléia também conheciam Jesus e, Marcos enfatiza que “grande multidão” procurava Jesus.
Retirou-se Jesus com os seus discípulos para os lados do mar. Seguia-o da Galiléia uma grande multidão. Também da Judeia, de Jerusalém, da Iduméia, dalém do Jordão e dos arredores de Tiro e de Sidom, uma grande multidão, sabendo quantas coisas fazia, veio ter com ele (Marcos 3.7-8).
Jesus não se empolgava com a sua popularidade. Na verdade, os evangelhos irão nos ensinar que muitos daqueles que o seguiam o faziam por causa dos milagres, em virtude dos seus interesses materiais nessa existência.
Em verdade, em verdade vos digo: vós me procurais, não porque vistes sinais, mas porque comestes dos pães e vos fartastes. Trabalhai, não pela comida que perece, mas pela que subsiste para a vida eterna, a qual o Filho do Homem vos dará; porque Deus, o Pai, o confirmou com o seu selo (João 6.26-27).
Neste, texto, mais uma vez, Marcos põe em confronto a a verdadeira missão de Jesus com os interesses das pessoas. Um pouco antes, no Evangelho, quando curara um paralítico em Cafarnaum, Jesus deixou claro o fato que a cura de enfermos era somente um meio para mostrar algo muito maior.
Ora, para que saibais que o Filho do Homem tem sobre a terra autoridade para perdoar pecados - disse ao paralítico: Eu te mando: Levanta-te, toma o teu leito e vai para tua casa (Marcos 2.10-11).
O que realmente importa na minha relação com Cristo, ele me curar de uma enfermidade ou dar-me a vida eterna?
Portanto, se você deseja viver prioritariamente para o Reino de Deus neste mundo, lembre-se de não resumir a sua vida aos aspectos materiais da existência.
Temos uma tendência natural a isso, meus irmão. Nós nos empolgamos com o Jardim e com a possibilidade de dominá-lo que nos esquecemos do fato de que devemos fazer isso para Deus.
Nossa vida, a vida de nossos filhos não pode ser resumida aos aspectos materiais e nós sabemos disto. Contudo é fácil perder o foco, é fácil confundir as coisas e deixar de lado o que é mais importante.
Foi com o intuito de conduzi-lo a priorizar as demandas da presente existência que o Diabo, tentou Jesus dizendo que lhe daria os reinos desta terra. Mas, Jesus sabia o que realmente era necessário fazer, cumprir com a vontade de Deus.
Marcos está nos mostrando o quanto Jesus estava pronto para não se deixar envolver por isso. Curar as pessoas era algo bom, se não fosse ele não o faria. Era algo necessário e se não fosse, ele não o faria. Contudo, nada poderia substituir o valor mais alto do seu ministério, morrer pelos nossos pecados.


Quem deseja viver prioritariamente para Deus não pode ter as demandas da presedeve prevenir-se para não ser envolvido de tal forma que se perca nas demandas desta presente existência
Prevenindo que a multidão o apertaria e o pressionaria a manter-se ali. Jesus disse aos seus discípulos para deixarem um barquinho preparado. Ele estava propondo um escape, para que a multidão não impedisse o curso da sua missão.
Então, recomendou a seus discípulos que sempre lhe tivessem pronto um barquinho, por causa da multidão, a fim de não o comprimirem (Marcos 3.9).
O verbo “triblousin” é o mesmo usado em outros momentos para “angústia” ou “tribulação”. Ele aqui é traduzido por “comprimir”.
Meus irmãos, Jesus não está se negando a ajudar as pessoas. Às vezes, ele passava a noite recebendo pessoas e curando-as. Ele estava pronto a ir ao encontro dos enfermos, ele percebia a sua necessidade e se compadecia delas.
No entanto, ele sabia que não poderia confundir sua prioridade e ser perder nas demandas justas desta vida. Penso, por exemplo, no caso do trabalho, dos estudos, das coisas próprias e justas que fazem parte da nossa vida. Essas coisas são justas e boas, mas não podem nos impedir de viver para Deus.
Curar pessoas, libertá-las era de fato, uma das coisas importantes do ministério de Jesus, mas não poderiam substituir sua missão.
Talvez, Jesus tenha se prevenido de duas coisas poderiam acontecer, a multidão poderia se empolgar com todo aquele poder e tentar fazê-lo rei, segundo as necessidades destes mundo, como aconteceu certa feita (Jo 6.15), ou impedi-lo de seguir adiante, pensando nestas demandas como mais prioritárias que o seu objetivo de inaugurar o Reino de Deus, entre os homens caídos, como Pedro tentou demovê-lo, certa feita (Mc 8.32, Mt 16.22).
Então, ele se previne deste problema. Ele pede aos discípulos que tenham preparado um instrumento de fuga desta situação. Evidentemente, Jesus não se desviaria da sua missão por causa dos seus pecados. Ele está se prevenindo da multidão, como o texto apresenta. Mas, desta forma, ele nos deixar uma grande lição.
Também nós precisamos nos prevenir contra tudo o que pode impedir nossa progressão no reino e na prioridade que devemos dar a ele. Até mesmo das coisas lícitas e muitas vezes necessárias.
Por exemplo, a igreja tem como prioridade o reino dos céus, mas, vivendo em um mundo caído, como lidar com as necessidades existências das pessoas? Não podemos simplesmente nos esquecer de que isso é importante, contudo, isso não pode nos impedir de viver para a nossa missão.
Pode parecer bastante piedoso, em lugar do culto e da pregação, vamos cuidar dos pobres. Nossa igreja, no pouco tempo que temos na semana, em lugar de ficar aqui parada, cantando louvores, vai às ruas, vamos ao encontro dos pobres etc...
Pedro, o próprio Pedro, disse aos irmãos:
Não é razoável que nós abandonemos a palavra de Deus para servir as mesas. (...)escolhei dentre vós sete homens de boa reputação, cheios do Espírito Santo e de sabedoria, aos quais encarregaremos deste serviço; e, quanto a nós, nos consagraremos à oração e ao ministério da palavra (Atos 6.2-4).
Não se perca nas demandas desta presente existência ainda que elas sejam justas. Não faça substituição de prioridades, então, tenha sempre o seu barquinho. Ele pode ser, para você, um tempo constante, marcado e determinado de oração. Ele pode ser, a presença assídua na casa do Senhor, para que sempre se lembre de que buscamos valores superiores, o vir a nós o seu Reino e o pão nosso de cada dia será consequência da vontade de Deus.
Buscai, pois, em primeiro lugar o Reino dos Céus e a sua justiça e todas estas coisas vos serão acrescentadas (Mateus 6.33).
Jesus nos ensina a preparar um barquinho, para momentos como esse.

Quem deseja viver prioritariamente para Deus deve prevenir-se para não ser enganado por uma falsa concepção de espiritualidade
Um dos aspectos mais interessantes do relato de Marcos é que ele enfatiza bastante a relação de poder que Jesus exercia sobre os poderes das trevas e sobre a realidade não material da vida.
Ele expulsou muitos demônios e muitas vezes, estes próprios demônios faziam declarações a seu respeito. Como por exemplo:
Que nós contigo, Jesus Nazareno? Vieste para perder-nos? Bem sei quem és: o Santo de Deus! Mas Jesus o repreendeu, dizendo: Cala-te e sai desse homem (Marcos 1.24-25).
No nosso texto, novamente Jesus se depara com situação semelhante. Pois, mais uma vez, um demônio vem fazer declarações a respeito de Jesus e de sua messianidade. Com certeza, essa publicidade gratuita do próprio adversário, pode parecer uma bom argumento em favor da messianidade de Jesus, mas ele não se deixava envolver por essa falsa piedade, essa falsa espiritualidade.
Também os espíritos imundos, quando o viam, protravam-se diante dele e exclamavam: Tu és o Filho de Deus! Mas Jesus lhes advertia severamente que o não expusessem à publicidade (Marcos 3.11-12).
A falsa espiritualidade pode ser um laço tão apertado quanto o mundanismo. Jesus lutava diretamente com essa falsa espiritualidade no seu confronto constante com as autoridades judaicas. Eles se postavam como os verdadeiros detentores da verdade de Deus, contudo não passavam de sepulcros caiados.
O confronto com a falsa espiritualidade é um ponto recorrente do começo deste evangelho. O nosso contexto imediato apontava para o fato de que os fariseus queriam ver se Jesus guardava ou não o sábado.
E por causa da dureza do seu coração ele curou um homem de mão ressequida. Eles, usaram isso para justificar a maldade de seu plano de lhe tirar a vida (Marcos 3.1-6).
A falsa espiritualidade pode mudar o nosso foco e o pior dela é que ela se veste de Reino de Deus para justificar-se e, no entanto, nada passa de poeira e a busca de si mesmo.
Um homem vai à igreja todos os dias. Tem um encargo importante como obreiro em um ministério. Pratica a evangelização na ruas... Contudo, maltrata seus filhos, não é honesto nos negócios e mantém conversas negativas sobre todas as pessoas que conhece e guarda muit a mágoa no coração. Eu pergunto: sua espiritualidade pode mudar sua condição de homem em pecado diante de Deus?
Prostrando-se - prosepipeten - a palavra grega que indica um dobrar de joelhos diante de... Era um sinal de reverência, mas era falsa. Jesus não se deixou convencer por essa postura, essa imitação que nada tinha a ver com um coração quebrantado.

Exclamavam - ekrassem legonta - Literalmente: gritavam dizendo - Seus gritos de exaltação de Jesus não convenceram Jesus. Ele não se deixava enganar pela falsidade dos gestos e palavras dos espíritos imundos. A própria palavra que os definia “imundos” apontava para uma mente poluída. Era como se Jesus estivesse novamente pensando com a mente do profeta: confessam com a boca, mas o coração está longe de mim.

Caros irmãos, vocês entendem a seriedade destas proposituras do evangelho? Então, não se deixem enganar pela falsa espiritualidade e cuidado com a sua própria. Dizer que Jesus é senhor, senhor, ou que é o Filho de Deus, não significa que seja realmente a verdade do seu coração.
Jesus não poderia ser demovido por essa falsa espiritualidade. Possivelmente, dando crédito aos demônios, seria acusado de ser por eles ajudado e difamaria o Reino dos Céus, ou seria ainda mais convincente e popular diante dos homens que o quisessem como um rei político.
A falsa espiritualidade pode ser tão fatal para a sua vida com Deus quanto o mundanismo. Então, previna-se contra ela. Repreenda a si mesmo quando isto acontecer. Muitas pessoas me perguntam, o que devo fazer, deixar de lado as coisas que parecem espirituais, mas não são, então devo deixar meus cargos e os meus trabalhos na igreja, no reino?
Não, você deve fazê-los como realmente convém. Você deve usá-los para priorizar o reino e não a si mesmo.

Conclusão

O que devemos aprender meus caros irmãos que devemos lutar contra tudo o que nos atrapalha e rouba a prioridade das coisas do Reino de Deus na nossa vida.
Devemos cuidar da nossa família e ensinar a mesma coisa aos nossos filhos. Eu vos convido a perceber o que tem atrapalhado a sua vida com Deus e repensar os seus valores.
Cristo não nos abandonou. Ele tinha  a cruz como sua prioiridade. Em outras palavras, ele tinha a sua salvação como prioridade e por isso deu a vida. Então, meu caro irmão e irmã, você não irá priorizar também isso?

Oração

Conceda-nos sabedoria para priorizar o teu reino e discernir sobre as nossas falhas.
Amém.